A pergunta que vem antes da trinca
Nos Ensaios Não Destrutivos, estamos habituados a procurar algo que já existe: uma trinca, uma descontinuidade, corrosão, perda de espessura ou uma alteração geométrica.
Mas existe uma pergunta anterior, extremamente valiosa para a manutenção e a integridade de ativos: é possível identificar regiões onde o material apresenta concentração de tensão antes que uma falha se desenvolva?
É nesse território que atua a Memória Magnética do Metal — Metal Magnetic Memory (MMM). Na Synvor NDT temos estudado esta tecnologia com atenção: além da documentação técnica da EDDYSUN, encontrámos estudos científicos que usaram equipamentos da família EMS para investigar a relação entre tensão mecânica, descontinuidades e alterações no campo magnético de materiais ferromagnéticos.

O aço possui um comportamento magnético próprio
Materiais ferromagnéticos, como muitos tipos de aço, têm regiões microscópicas chamadas domínios magnéticos. Dentro de cada domínio, os momentos magnéticos atómicos apresentam uma orientação aproximadamente comum.
Isso não faz de uma estrutura de aço um grande íman. Em condições normais, os domínios orientam-se em direções diferentes e grande parte dos seus efeitos compensa-se externamente. Mas esse equilíbrio não é independente do estado mecânico: tensão, deformação e alterações microestruturais influenciam o estado magnetomecânico do material.
O que acontece quando o aço é submetido a tensão?
Uma estrutura ferromagnética em serviço sofre durante anos carregamentos, ciclos, vibração, tensões residuais e concentrações geométricas de tensão. Em determinadas regiões, o estado de tensão torna-se significativamente diferente do das áreas adjacentes.
Essa alteração mecânica pode associar-se a mudanças no comportamento magnético local, originando heterogeneidades mensuráveis no campo magnético junto à superfície. É essa informação que o MMM procura explorar.
A documentação técnica do EDDYSUN EMS-2003C descreve que, em regiões com defeitos ou concentração interna de tensões, a componente normal do campo magnético pode mudar de sinal e passar por zero.
A sonda não precisa de criar o fenómeno que observa
Em correntes parasitas (ECT), a sonda gera um campo alternado que induz correntes no material. Em ultrassom (UT), introduzimos uma onda acústica e analisamos os ecos.
No MMM, a lógica é diferente: mede-se o campo magnético já existente junto à superfície e observa-se como varia no espaço, sem aplicar deliberadamente um forte campo de magnetização. Tenta-se ler uma informação magnética já presente — daí a ideia de “memória magnética”.
A sonda percorre a superfície e regista o campo: o sinal Hp(y)
Durante a inspeção, uma sonda magnética desloca-se sobre a região analisada e mede componentes do campo em função da posição. Uma das grandezas mais citadas na literatura é Hp, incluindo a componente normal Hp(y).
Em vez de um simples “defeito / sem defeito”, obtém-se um sinal ao longo da distância percorrida. O EMS-2003C dispõe de oito canais MMM, visualização dos valores S e K, medição de distância e alarmes ligados a Hp e K — incluindo um alarme quando Hp atravessa zero.

Hp elevado não significa automaticamente “existe um defeito aqui”
Essa simplificação seria tecnicamente perigosa. Interessa o comportamento espacial do sinal: mudanças de sinal, gradientes e distribuição do campo ao longo da posição ajudam a localizar regiões magneticamente anómalas.
MMM pode mudar a pergunta da inspeção
Os métodos tradicionais começam com: onde está a descontinuidade? Com MMM acrescenta-se: onde este componente apresenta uma condição magnetomecânica anómala que merece ser investigada?
Essa região torna-se prioritária para inspeção complementar com UT, PAUT, ECT, MT ou outra técnica adequada ao ativo, material, geometria e mecanismo de dano. O MMM não compete com os métodos tradicionais: acrescenta uma camada de informação à estratégia de integridade.
Funciona experimentalmente? O estudo com o EMS-2003
Um estudo publicado na revista Materials em 2019 — “Influence of Crack Size on Stress Evaluation of Ferromagnetic Low Alloy Steel with Metal Magnetic Memory Technology” — trabalhou com corpos de prova de aço 12CrMoV, ranhuras de diferentes dimensões a representar descontinuidades superficiais e vários níveis de tensão.
As medições foram feitas com um EDDYSUN EMS-2003 — geração anterior ao atual EMS-2003C — com sonda tipo caneta de dois canais montada numa plataforma de posicionamento tridimensional não magnética, para controlar o deslocamento sobre o corpo de prova.
À medida que as condições mecânicas e as descontinuidades mudavam, os investigadores observaram alterações correspondentes no comportamento do sinal magnético.

Referência científica
Liu, B.; Fu, P.; Li, R.; He, P.; Dong, S. Influence of Crack Size on Stress Evaluation of Ferromagnetic Low Alloy Steel with Metal Magnetic Memory Technology. Materials, 2019.
Consultar a publicação científica →Na Parte 2: os dados
No próximo artigo entramos no experimento: como a sonda foi usada, o que significa Hp(y), o comportamento do sinal durante o carregamento, o zero-crossing, o gradiente magnético e o que os resultados permitem — ou não — concluir.
Mostraremos também como esta linha evoluiu para o atual EMS-2003C, que reúne MMM, ECT e RFT numa só plataforma.
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